Depoimentos

 
Márcio Cegonha, guitarrista
“Quando eu tinha 16 anos, um amigo de infância, baterista, me convidou prá ir ao ensaio da Lucas Scariotys. Eu trabalhava num banco, era um garoto correto e estranhei aquele cheiro de maconha no ensaio. Luka cantava com uma bolsinha de couro pendurada no ombro. Se há um ‘Jardim do Diabo’, Luka carregava ali o adubo. Paulinho tocava guitarra como quem toca violão, exceto pelas distorções e flangers. O efeito era algo que eu nunca tinha ouvido, pois até então não conhecia Pixies. Carlinhos tocando baixo era sistemático e duro como um relógio, além disso adorou me encher o saco por eu ser ‘guri de banco’. O baterista Cris, meu amigo, não se sabe o que fazia ali. Estava no lugar errado e pouco tempo depois já não tocava mais conosco. Sim, eu passei a fazer parte da Lucas.” 

“Nosso primeiro show foi num bar chamado Calabar, em Cachoeirinha, num domingo à tarde. Fantástico! Pelo menos prá nós. A platéia, não sei se gostou. Dali em diante, passamos a ter uma vida juntos. Nos dávamos muito bem, mesmo quando brigávamos. E seguimos tocando, compondo, fazendo shows que não pagavam nem nossa comida, mas nos divertindo muito. Havia mulheres, havia... Você sabe.” 

“O Aquiles era a alegria dos donos de pizzarias, mas era também, sem dúvida, o mais ‘músico’ de todos nós. Chegou e acabou gostando do som e das pessoas.”

“Eu acabei seguindo a carreira de músico. Estudei música seriamente. Ensinei música. Toquei em muitas outras bandas, coisas muito diferentes. A Lucas, contudo, nunca mais se repetiu. Toda experiência que vale a pena, é singular. A Lucas Scariotys foi singular. Hoje percebo que meu contato com os ' luquetes' foi decisivo no rumo que eu tomei, na decisão de migrar para a área ‘das humanas’. Aprendi, com os rapazes, o valor da cultura e da busca de informação, do posicionamento político, entre outras coisas. Como meu pai biológico não esteve presente, é bem provável que tenha adotado como modelo um pouco de cada um dos ‘luquetes’.”


 
Carlinhos, baixista 
“Desde criança me liguei em rock. Quando eu tinha cinco anos minha mãe anunciou para o meu pai: ‘O Carlinhos gosta de música de cabeludo!’. Lá em casa isso era notável, pois os dois gostavam de música regional do Rio Grande do Sul. Mas minha mãe tava certa, eu não só gostava de música de cabeludo como também apreciava a estética deles. Eu morava numa rua central de uma cidade do interior e no início da década de 70 muitos hippies passavam na frente da minha casa. Os cabelos compridos e as roupas me atraíam bastante. Mais tarde, fui morar ao lado de um clube noturno. Toda a vizinhança reclamava do barulho, menos eu. Gostava de adormecer ouvindo a música alta que vinha desse clube e me fascinava, especialmente, o som encorpado de um instrumento que só mais tarde fui saber que era o contra-baixo elétrico. Nessa época cheguei até a liderar um coral com crianças da vizinhança. Posso dizer que fui uma criança mais pop que a média’’.

“Cada um de nós tinha uma personalidade diferente. Como não éramos profissionais, isso ajudava e atrapalhava. O Luka era praticamente conduzido, tinha talento mas era muito louco pra executar qualquer coisa sozinho; o Aquiles era muito objetivo, rígido até; o Cegonha era o tipo mais reflexivo, mesmo hesitante às vezes; e eu, embora me esforçasse pra fazer minha parte direito, achava que extravasar certa loucura era do jogo, o que de vez em quando complicava. Uma vez, num show, chutei uns pedais pra fazer cena e acabei com toda a energia do palco. Quase me mataram!" 

"Em estúdio, praticamente não compúnhamos nada em conjunto. Chegávamos e tocávamos as idéias trazidas por um ou outro, corrigindo poucas coisas aqui e ali, quando dava para corrigir. A música da Lucas é um caleidoscópo das nossas entranhas. É absolutamente fiel ao que queríamos e podíamos tocar naquele momento”.

"Durante uns dois ensaios, o Paulinho apareceu sem a guitarra. Aí, falamos: 'cara tu é guitarrista desta banda, logo, tem que trazer a guitarra pro ensaio'. Foi aí que ele informou que tinha trocado a guitarra por um cheque sem fundos." 


 
Paulinho, operador de som e ex-guitarrista 
“No começo eu não conseguia tocar todos os acordes, mas persistência e algumas garrafas de vodka ajudaram bastante. Desde o início nosso objetivo era tocar músicas próprias. Com as primeiras composições surgiu a necessidade de ter alguém que só se preocupasse em cantar. Então, o Luka saiu da bateria e outro cara foi convidado momentaneamente para tocar conosco. Os ensaios ficaram cada vez mais quentes e as músicas saíam com mais naturalidade. Os ensaios que gravávamos nos pareciam muito bons.”

“Eu sempre trabalhei com som mesmo antes da banda e iniciei no grupo um trabalho de preparação da sonoridade. Percebi que o acréscimo de uma guitarra solo enriqueceria a música. Não lembro quem um dia convidou o Márcio para ir a um ensaio, mas recordo de ver estampado no rosto dele a empolgação com o nosso trabalho. Ele já tocava guitarra e com o tempo melhorou bastante. A banda então passou a ter cinco pessoas e junto com a nossa vontade de tocar ao vivo começaram a pintar convites para pequenas apresentações.” 

“Uma noite, num ensaio, o baterista convidado inventou de roubar um microfone do estúdio onde ensaiávamos, arrumou um problemão pra nós e teve de ser sacado do grupo. Voltamos a ser quatro. Colocamos anúncios procurando outro integrante e não demorou muito até um cabeludo, fã do Iron Maiden, aceitar ocupar o espaço. Seu estilo agressivo acrescentou muito à qualidade do nosso som. Os ensaios e o número de músicas aumentaram. Eu passei a cuidar somente do som, deixando a guitarra. Ficaram então os quatro ‘Lucas’ que iriam permanecer até o término da banda.” 

“Os anos 90 foram os melhores para apresentação de bandas amadoras, pois os bares sempre queriam alguém tocando e a presença de público era certa. Os integrantes da `Lucas´ passaram a ter um convívio muito intenso, sempre tendo o rock como impulso maior. Fizemos muitas viagens juntos. O número de amigos foi crescendo e o mundo se abrindo. A participação e a convivência com outras bandas ampliaram nossos horizontes no rock. A `Lucas´tornou-se conhecida de muitas pessoas.” 


 
Aquiles, baterista 
“O ano era 1988, eu estava no auge da minha paixão pela música até então. Eu era recém-chegado de Foz do Iguaçu onde havia deixado todos os meus amigos e também a minha primeira banda, a Stylo Livre. Comecei a procurar por novas bandas nos estúdios de Porto Alegre, até que encontrei a Banda Lucas Scariotys procurando baterista....” 

“Depois do primeiro contato, logo começaram os ensaios e os primeiros shows, que geralmente eram em Festivais de Rock ou bares com pouquíssima estrutura, o que era normal para a época. Desde o início eu percebi que a intenção da banda era apenas divertimento por parte dos outros integrantes, mas eu sempre acreditei que poderíamos chegar a algum lugar pela originalidade.” 

“Em 1991 estava em cartaz o filme The Doors e fomos todos juntos para o cinema assistir, o que acabou ajudando a percebermos que os objetivos dentro da banda eram completamente diferentes. Eu queria muito que a banda se tornasse algo realmente sério, enquanto todo o restante do grupo viu no filme o que eles realmente estavam a fim de fazer. Logo em seguida acabei deixando a banda pelas famosas ‘divergências musicais’ e segui meu caminho tocando em outras bandas de Porto Alegre.” 

“O contato com os integrantes da banda nunca acabou e continuamos a sair juntos e a conviver em ambientes diferentes. Cheguei a tocar na banda de cover Raro Efeito com o baixista Carlinhos e por causa disso eu sempre sabia o que a Lucas estava fazendo e também podia rever todos os integrantes durante os poucos shows que eles faziam pelos arredores de Porto Alegre. Posso dizer perfeitamente que a Lucas foi muito importante dentro do meu processo de evolução musical e pessoal, pois aprendi, ou tentei, conviver com pessoas que tinham um ponto de vista bem diferente do meu, mas nem por isso deixamos de fazer a nossa história para poder contá-la depois.” 

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